Usando a comunicação não-violenta com agências e clientes

Nesses anos de trabalho, tenho reparado que importante é tentar ser um parceiro da agência de tradução com a qual trabalhamos, e não meramente um tradutor autônomo que faz parte do banco de talentos de tal agência. O que quero dizer com isso não é que temos que ter um contrato diferenciado ou nos apresentarmos como “parceiro” de tal agência. A ideia de “parceria” está na nossa atitude para com o(s) gerente(s) de projeto e outros integrantes da agência.

Essa atitude diferente pode ser demonstrada de várias maneiras ao realizar um trabalho para a agência. Para mim, acho importante demonstrar que a gente se importa com o resultado final, e não com a fama de ser melhor do que o revisor ou qualquer outro tradutor. Isso quer dizer que, se você pegou um trabalho ruim ou mal traduzido para arrumar, ou está revisando um trabalho de outro colega, ou o texto original está muito mal escrito (ou veio pessimamente traduzido de outro idioma), a melhor maneira de lidar com o caso, na minha opinião, é mostrar que você se importa com a tradução final e você quer ver o cliente feliz. Para isso, talvez você precise de mais prazo ou de uma tarifa maior para aquele projeto, que o texto seja devolvido ao tradutor inicial para revisão extra ou que o cliente seja avisado que o texto original não está com a qualidade tão boa e, por isso, a tradução pode também sofrer.

Recentemente, recebi um glossário para ser revisado para um cliente novo de uma agência, e a estimativa de 1 hora para a revisão ortográfica e gramatical dos termos acabou virando quase 2 horas e meia, pois a tradução não estava boa. Aliás, era perceptível que não houve nenhum tipo de pesquisa por parte do tradutor: as traduções não eram nada relevantes ao contexto, as siglas foram mal interpretadas, etc., apesar de todos os termos serem encontrados facilmente no site da empresa em questão. Por conta da diferença de horário com a agência, eu não podia simplesmente deixar de retraduzir quase todos os termos do glossário e esperar o dia seguinte para falar com a gerente de projetos. Fiz o meu trabalho, tendo na mente o cliente final e o projeto que estaríamos começando em seguida. E, para esse projeto, o glossário era parte essencial. Fiz meu trabalho e, ao enviar o glossário revisado (ou melhor, retraduzido), com ele enviei uma observação dizendo que revisar o trabalho foi frustrante, pois percebi que os termos traduzidos não eram relevantes à área (salientei que os termos foram facilmente encontrados no site do cliente), portanto o trabalho não se limitou apenas à revisão gramatical e ortográfica, e acabou incluindo pesquisa e validação terminológica e retradução de quase todo o arquivo. E descrevi o cálculo do meu pagamento, dizendo o quanto na realidade aquele trabalho tinha me custado, devido ao meu tempo extra arrumando o arquivo.

Comunicar algo assim para um gerente de projeto pode ser difícil, e sou contra mandarmos um e-mail com uma mistura de ataques ao outro tradutor, reclamações e ordens exageradas. Vira e mexe temos um pé atrás de que a agência quer sacanear a gente e que o gerente de projeto é um monstro e não vai querer nos ajudar. No entanto, eu acredito que, se nos comunicarmos de forma carinhosa, empática e compassiva, sem esses receios e sem deixar as emoções interfirirem na mensagem, temos mais chance de obter o que queremos ou, ao menos, começar a criar uma parceria com a agência através de uma comunicação limpa e não-violenta.

A comunicação não-violenta é uma abordagem desenvolvida por Marshall Rosemberg que segue uma estrutura baseada em quatro pilares:

  1. Observação: observar os fatos sem fazer julgamento
  2. Sentimentos: identificar os sentimentos em relação à situação
  3. Necessidades: identificar quais necessidades estão associadas a esses sentimentos
  4. Pedidos: pedir certas ações para atender às necessidades identificadas

Veremos, para o exemplo acima da revisão do glossário, como a comunicação não-violenta foi aplicada:

Observação: a tradução estava com uma qualidade ruim e eu, como revisora, fiz o trabalho de pesquisa dos termos, que deveria ter sido feita pelo tradutor. Observe que não há ataques ao outro tradutor (se ele é ruim, descuidado, etc.).

Sentimento: como me senti frustrada por reservar uma hora para o trabalho, mas ter gasto mais que o dobro e ter feito um trabalho que não estava dentro do escopo da revisão.

Necessidade: da próxima vez, preciso saber que o trabalho de revisão envolverá também pesquisa dos equivalentes terminológicos, não somente uma revisão de gramática, ortografia e verificação de algum deslize do tradutor (que, claro, pode acontecer; não espero que a tradução venha 100% sem nenhuma falha), assim não me sentirei tão frustrada e podemos estimar o tempo necessário para o projeto com mais precisão.

Pedido: que a agência cobrisse, se possível, o tempo total que gastei no trabalho e que da próxima vez fosse mais clara quanto às instruções e o escopo do trabalho.

Resultado: me tornei a nova tradutora primária dentro da agência para aquele cliente específico. A agência me agradeceu pelo feedback (relatado no fato/observação) e que passaria o feedback ao tradutor; se lamentou por eu me sentir frustrada e agradeceu minha dedicação e meus insights (isso possível de acordo com a descrição de como me senti); se dispôs a aumentar o valor pago pelo trabalho para cobrir as horas extras e me informou que de agora em diante eu seria a tradutora primária quando o cliente solicitasse traduções.

A reação da agência provavelmente teria sido outra se eu tivesse escrito algo do tipo: “O tradutor mandou um trabalho muito ruim, refiz todo o trabalho, não é justo receber pelo o que fiz, nunca mais quero trabalhar com esse tradutor e nunca mais pegarei trabalhos de revisão.” Eu sei que nem todos escreveriam assim, mas, às vezes, dependendo de como você se comunica, é assim que a outra parte lê a sua comunicação.

Da forma como escrevi, a comunicação com a gerente de projeto foi empática, de parceria, e não repleta de ataques, ordens nem reclamações. E, assim, me rendeu um relacionamento de lealdade com a agência e com o novo cliente.

 

Tópicos para 2019

2019 sug

Feliz ano novo a todos! 🙂

Espero que todos estejam com as energias renovadas, e que o ano seja repleto de muitas traduções.

Não consegui estar muito ativa no blog no ano passado. Mas gostaria de escrever mais pra vocês neste ano. Por isso, gostaria de saber sobre o que vocês gostariam de ler aqui no blog. Escrevam pra mim contando os temas sobre os quais gostariam que eu escrevesse – qualquer coisa relacionada com tradução, transcriação, localização e afins. Farei o possível para publicar posts sobre os assuntos sugeridos (de acordo com o que eu conhecer sobre cada tema).

Feliz com qualquer contribuição 🙂 Aguardo as sugestões de vocês.

 

Foto: NordWood

Pesquisa no Google: dicas

Muita gente pensa que tradutor tem vários dicionários na cabeça e sabe tudo de cor e salteado. Porém muitos não sabem que uma parte importante do trabalho do tradutor é a pesquisa. Pesquisar por definição de termos no original, pesquisar por possíveis equivalentes na língua de chegada, pesquisar sites da área que possivelmente usam a terminologia específica, pesquisar imagens para ver se correspondem ao termo de origem e de chegada… há isso e muito mais às vezes para pesquisar ao traduzir.

O blog do HubSpot publicou esta matéria um tempo atrás com “14 dicas para pesquisar no Google como um especialista”. Muitas delas são úteis para nós, tradutores, e agilizam nosso trabalho de pesquisa, nos deixando mais tempo para as demais etapas da tradução. Vale a pena conferir 🙂

Crédito da imagem: rawpixel

Uso da vírgula com a conjunção “e”

Diferença de uso da vírgula em enumeração no inglês e no português

Veja este post sobre o uso da vírgula antes da conjunção “e” no blog Revisão para quê?. Eu li há um tempo e pensei em vir aqui escrever um post rapidinho sobre isso para chamar a atenção para uma regra diferente no inglês (ao concluir uma enumeração), que muitas vezes é copiada erroneamente na tradução ao português.

Vejamos o ponto abaixo colocado pela Carol Machado do blog em questão:

Quando não usar vírgula antes do e

Casos em que devemos dispensar a vírgula:

Quando o e conclui uma enumeração:

  • Várias línguas— francês, italiano, alemão e rético — se falam na Suíça.
  • Eis três mulheres bíblicas: Sara, Rebeca e Lia.

Exemplos retirados de Rocha Lima (2011, p. 317).

Note acima que, no português, a vírgula não deve ser usada ao concluir uma enumeração. No inglês, a vírgula é geralmente usada antes do último item enumerado. Ou, mais especificamente, antes do ‘and’ na enumeração. Por exemplo:

  • Last night, I had a salad, rice, fish, and lentils for dinner.
  • My closest friends: Maria, Kris, and Bella.

Por que estou tocando nesse ponto? Porque, como sabem, reviso muita tradução de colegas e vejo, cada vez mais, que os tradutores ignoram a regra do português e seguem a pontuação do original, incluindo a vírgula ao concluir a lista de itens enumerados. Isso resulta em frases com a vírgula usada incorretamente antes da conjunção “e”, como abaixo:

  • Ontem à noite, comi salada, arroz, peixe, e lentilhas no jantar. (uso incorreto)
  • Minhas amigas mais chegadas: Maria, Kris, e Bella. (uso incorreto)

Como explicado pelo Revisão para quê?, essa última vírgula na enumeração antes da conjução “e” não existe. Por isso falei que o post seria rapidinho – só para vir lembrá-los dessa diferença entre o português e inglês.

Obs: Sempre gosto de ressaltar que esses apontamentos não são para criticar os colegas tradutores, mas para lembrá-los das diferenças entre o português e o inglês, e, assim, ajudá-los a melhorar a qualidade de suas traduções.

 

Falando sobre a profissão no The Migration Show

Notícia rápida: duas semanas atrás, fui convidada para falar no podcast The Migration Show, apresentado pelos agentes de imigração Monica Gruszka e Mark Northam. O episódio foi ao ar na semana passada e, animada, venho aqui compartilhar com vocês. No link acima, a partir do minuto 40:30, vocês podem me ouvir falando sobre como nós, tradutores, e os agentes de imigração podem trabalhar melhor juntos, como sinto que as pessoas não dão o devido valor aos serviços de tradução, e as vantagens de se trabalhar com tradutores individuais. Espero que curtem! (O podcast também pode ser ouvido em um app de podcast no celular).

Sobre traduzir e suas sutilezas

Hoje compartilho com vocês a entrevista feita pela querida Carol Alberoni, do blog Carol’s Adventure in Translation, com a aclamada tradutora australiana Alison Entrekin, que traduziu do português ao inglês difíceis obras literárias brasileiras. Não só admiro muito o trabalho da Alison, como acho que ela muitas vezes fala de coisas muito sutis em suas entrevistas, desta vez como entender a pontuação das línguas com que se trabalha (e usá-la de forma que faça sentido nas línguas em questão, principalmente na de chegada para o tradutor). Reconhecer essas sutilezas faz parte do trabalho de um tradutor de qualidade, não só do tradutor literário.

You have to analyse the context and ask questions: How does this piece flow? Who is speaking? Does this comma cause readers of the translation to pause where readers of the original keeping going? Does it change the rhythm or tone?

E, para não pensarem que a dica que sempre dou de ler a tradução em voz alta é coisa banal, a Alison também fala a mesma coisa:

If you can, read your translation out loud, listening for glitches, sense, transitions, alliteration that isn’t supposed to be there.

E reforça também a importância de revisar a tradução várias vezes:

Revise, revise, revise. When in doubt, revise again.

Essas dicas são maravilhosas não apenas para quem esteja traduzindo literatura, mas qualquer gênero textual.

Leia a entrevista completa, em inglês, aqui. A entrevista faz parte da série de entrevistas Greatest Women in Translation do blog da Carol.

Artigo indefinido ao traduzir profissões

Uma das minhas observações recentes ao revisar traduções de colegas revela que há muita confusão no uso dos artigos ao traduzir do inglês ao português. É válido lembrar que o inglês usa determinado artigo que às vezes não é necessário na tradução ao português. Ou, ainda, o inglês não usa artigo, mas ao traduzir para o português precisamos incluir tal elemento.

Um dos casos em que o inglês usa o artigo, mas o português não é ao indicar profissões no singular.

Por exemplo:
I am a translator. Sou tradutora.

Veja que a tradução não é Sou uma tradutora. Como já dei a dica aqui antes, é só pensarmos ou lermos em voz alta. Se alguém perguntar para você em português qual é sua profissão, você responderia “Sou um tradutor” ou “Sou tradutor”?

Outros exemplos:
He’s a writer. Ele é escritor. (Incorreto: Ele é um escritor).

She wants to work as a teacher next year. Ela quer trabalhar como professora no ano que vem. (Incorreto: Ela quer trabalhar como uma professora no ano que vem).

No entanto, se houver um adjetivo, então o artigo será necessário:

She’s a famous actress. Ela é uma atriz famosa.

Bom, espero que os colegas que têm feito as traduções que eu reviso vejam este post 🙂 e notem a diferença nas suas traduções. Semana passada revisei uma tradução de 80 mil palavras que seguia sempre os mesmo artigos do original em todas as ocasiões e exigiu algumas boas alterações, e hoje revisei mais um projeto em português que estava cheio desses artigos indefinidos ao apresentar os funcionários de uma empresa e suas aspirações de carreira. Não é crítica, porém mais uma dica para que os colegas possam aprimorar seus dotes tradutórios. E repito, mais uma vez, leiam suas traduções em voz alta, fazendo de conta que é você que está falando aquilo. Ao fazer essa leitura com atenção, com certeza dá para notar que algumas traduções literais ou palavra por palavra não caem bem.

Desejo a todos uma boa passagem de ano. Que 2017 seja um ano repleto de traduções e uso correto de artigos 🙂