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Sobre traduzir e suas sutilezas

Hoje compartilho com vocês a entrevista feita pela querida Carol Alberoni, do blog Carol’s Adventure in Translation, com a aclamada tradutora australiana Alison Entrekin, que traduziu do português ao inglês difíceis obras literárias brasileiras. Não só admiro muito o trabalho da Alison, como acho que ela muitas vezes fala de coisas muito sutis em suas entrevistas, desta vez como entender a pontuação das línguas com que se trabalha (e usá-la de forma que faça sentido nas línguas em questão, principalmente na de chegada para o tradutor). Reconhecer essas sutilezas faz parte do trabalho de um tradutor de qualidade, não só do tradutor literário.

You have to analyse the context and ask questions: How does this piece flow? Who is speaking? Does this comma cause readers of the translation to pause where readers of the original keeping going? Does it change the rhythm or tone?

E, para não pensarem que a dica que sempre dou de ler a tradução em voz alta é coisa banal, a Alison também fala a mesma coisa:

If you can, read your translation out loud, listening for glitches, sense, transitions, alliteration that isn’t supposed to be there.

E reforça também a importância de revisar a tradução várias vezes:

Revise, revise, revise. When in doubt, revise again.

Essas dicas são maravilhosas não apenas para quem esteja traduzindo literatura, mas qualquer gênero textual.

Leia a entrevista completa, em inglês, aqui. A entrevista faz parte da série de entrevistas Greatest Women in Translation do blog da Carol.

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13/05/2017 · 04:57

Artigo indefinido ao traduzir profissões

Uma das minhas observações recentes ao revisar traduções de colegas revela que há muita confusão no uso dos artigos ao traduzir do inglês ao português. É válido lembrar que o inglês usa determinado artigo que às vezes não é necessário na tradução ao português. Ou, ainda, o inglês não usa artigo, mas ao traduzir para o português precisamos incluir tal elemento.

Um dos casos em que o inglês usa o artigo, mas o português não é ao indicar profissões no singular.

Por exemplo:
I am a translator. Sou tradutora.

Veja que a tradução não é Sou uma tradutora. Como já dei a dica aqui antes, é só pensarmos ou lermos em voz alta. Se alguém perguntar para você em português qual é sua profissão, você responderia “Sou um tradutor” ou “Sou tradutor”?

Outros exemplos:
He’s a writer. Ele é escritor. (Incorreto: Ele é um escritor).

She wants to work as a teacher next year. Ela quer trabalhar como professora no ano que vem. (Incorreto: Ela quer trabalhar como uma professora no ano que vem).

No entanto, se houver um adjetivo, então o artigo será necessário:

She’s a famous actress. Ela é uma atriz famosa.

Bom, espero que os colegas que têm feito as traduções que eu reviso vejam este post 🙂 e notem a diferença nas suas traduções. Semana passada revisei uma tradução de 80 mil palavras que seguia sempre os mesmo artigos do original em todas as ocasiões e exigiu algumas boas alterações, e hoje revisei mais um projeto em português que estava cheio desses artigos indefinidos ao apresentar os funcionários de uma empresa e suas aspirações de carreira. Não é crítica, porém mais uma dica para que os colegas possam aprimorar seus dotes tradutórios. E repito, mais uma vez, leiam suas traduções em voz alta, fazendo de conta que é você que está falando aquilo. Ao fazer essa leitura com atenção, com certeza dá para notar que algumas traduções literais ou palavra por palavra não caem bem.

Desejo a todos uma boa passagem de ano. Que 2017 seja um ano repleto de traduções e uso correto de artigos 🙂

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28/12/2016 · 05:36

Troca de e-mails e nome de arquivos

Estava querendo escrever sobre este assunto há algumas semanas. Talvez seja um tópico básico para alguns, mas dadas as minhas recentes observações nas trocas de mensagens, acho que vale a pena relembrar. Por isso, aqui vão duas dicas, uma de comunicação com clientes, agências e colegas por e-mail, e outra de organização/nome de arquivos:

  1. Mantenha o assunto do e-mail. Vejo que alguns colegas, quando se comunicam comigo por e-mail, alteram o assunto do e-mail que estamos trocando. Se eu mandei um e-mail com o assunto “Terminologia – dúvida”, não altere a linha de assunto para “Oiii – aqui vai minha resposta!!”. Ao fazer isso, todo o thread da conversa se perde. E se um dia eu quiser tentar achar esse thread ou a sua resposta na minha inbox ou nas pastas, vai ser muito mais difícil. Essa prática de mudar o assunto do e-mail deve ter se tornado comum, pois percebi que as agências agora estão colocando um lembrete em suas comunicações pedindo para que a linha de assunto não seja alterada. Imagine a agência negociando com você um serviço; vocês trocam e-mails e mais e-mails com o assunto “Tradução EN-PT – Marketing” e, do nada, você responde que aceitará a proposta com o assunto “Bom dia! Pode contar comigo!!”. Não só é deselegante ter uma linha de assunto assim como essa, como também é confuso; pense na agência recebendo um e-mail solto, sem o thread de mensagens vindo colado atrás. Ou, imagine, você já entregou a tradução e, por não ter recebido confirmação da entrega, você escreve para seu gerente de projetos para saber se ele recebeu o arquivo. Se você mandar um e-mail solto “Tradução – recebeu?”, a agência, com tantos clientes e tradutores e projetos e arquivos, não é obrigada a saber do que se trata. Em casos como esse, volte lá no e-mail inicial “Tradução EN-PT – Marketing” e responda lá, após a última mensagem que vocês trocaram.
  2. Mantenha o nome do arquivo. Se o cliente, agência ou colega lhe enviou um arquivo sobre petróleo para traduzir, cujo nome é “Time_50432_tradução.doc”, não entregue o arquivo para a agência com o nome “Petróleo – agencia X.doc” ou qualquer outro nome. Em geral, as agências têm seu próprio padrão de nomenclatura dos arquivos, que pode incluir o nome do projeto, o código do cliente, o número da ordem de serviço, o tipo de serviço, etc. Isso serve para facilitar o armazenamento e consulta dos documentos; é uma questão de organização. Pense que a agência pode receber vários arquivos em um dia de vários clientes e tradutores diferentes, e um mesmo arquivo pode ter sido enviado para tradutores de pares de idiomas diferentes. Dessa forma, ao mudar o nome do arquivo (e também do assunto, como dito acima!), a agência ou o cliente pode ficar confuso e até cobrar a entrega horas depois do prazo, achando que você não entregou a tradução ainda. Novamente, vejo cada vez mais as agências passando instruções sobre como nomear ou como não se deve alterar o nome dos arquivos. O máximo, por vezes, que é recomendado fazer, caso a agência não passe nenhuma instrução, é acrescentar o idioma de chegada ao final do nome. Por exemplo, se você traduziu o arquivo acima para o português, pode acrescentar PT ou BR-PT ao final: “Time_50432_tradução_BR-PT.doc”. Assim, fica até mais fácil para você identificar no seu computador que esse é o arquivo traduzido, enquanto o outro sem o código do idioma é o original.

Espero que essas duas dicas nos ajudem a termos trocas de comunicações mais organizadas 🙂

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31/10/2016 · 21:26

Entendimento do texto original

Todo mundo sabe que dominar a terminologia da área na qual se trabalha é importante. Porém não podemos esquecer de algo fundamental: entender o texto de origem; compreender o que a frase, o trecho ou o parágrafo a ser traduzido quer dizer.

Antes de buscar usar as palavras equivalentes no idioma de chegada, é importante primeiro conseguir interpretar o que o texto está dizendo e, a partir daí, construir a tradução, fazendo uso das palavras e dos termos mais adequados para essa interpretação. Lembram do que já discuti aqui sobre a função do texto original? Quando entendemos a função do texto original, fica mais fácil interpretar os detalhes e traduzir a ideia, não apenas cada palavra.

Mas sem entrar na teoria funcionalista, gostaria de destacar a importância de entendermos a essência de, por exemplo, uma frase. Se o texto original fala “Guests will enjoy a complimentary drink in the lobby at check in”, talvez mais do que achar o termo certo para “lobby” (saguão, lobby, etc.), é entender que, ao chegarem no hotel, os hóspedes são recebidos com uma bebida. A ênfase aqui não é no lugar onde o drink é oferecido – de certa forma, pouco importa se é no lobby, no balcão da recepção ou no balcão do concierge. O que deve chamar atenção é o benefício oferecido ao hóspede. Assim, “in the lobby at check in” pode até virar um simples “na chegada” na tradução, se o texto permitir. De nada adiantaria traduzir “lobby” corretamente nessa frase de acordo com o mercado e a preferência do cliente, e então errar no “complimentary drink”, traduzindo como “bebida complementar” ou outra tradução das que vemos por aí. Entendem o que quero dizer?

Ontem em um grupo no Facebook, uma colega perguntou sobre a tradução de “leitos” para o inglês, dentro da área de hotelaria. Acertadamente, colegas apontaram que nos EUA usa-se mais “quarto” (room) como métrica do que “leito” (bed), e outros colegas, alguns não especializados em hotelaria, ainda intervieram para explicar como uma reserva em um hotel no país americano se dava por quarto de acordo com os tipos de cama, ou como a contagem nesse país é por quartos por noite, não por leitos. Tomando por base a ideia da frase original, que dizia algo como “A pesquisa aponta um déficit nos leitos oferecidos em relação à demanda”, o destaque aqui não são os leitos e se deveriam ser quartos ou não na tradução. A ideia é que, em certa região, há mais hóspedes do que lugares para eles dormirem e, portanto, há oferta hoteleira insuficiente para o tanto de procura. Vejam que, nesse caso, de nada adiantaria buscar o termo equivalente perfeito sem entender o que a frase quer dizer (e isso podendo provavelmente impactar no resto da tradução). Ou seja, mesmo se nos EUA o uso estatístico for baseado em “quartos”, ao interpretarmos essa frase entendemos que a questão não é usar o termo mais comum no país de chegada; importa destacar a ideia de que há menos oferta no setor para tal demanda.

Espero que este post nos ajude a lembrar que não somente traduzimos palavras, mas entendemos o contexto e interpretamos o texto, sua função e sua ideia central.

Obs: sei que, em alguns textos e contextos, e, em algumas áreas, usar o termo equivalente direto é fundamental e nem todas as especialidades permitem essa liberdade na hora de traduzir.

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09/10/2016 · 23:03

10 dicas de coisas que aprendi em 10 anos de carreira

Este mês é especial. Nele comemoro 10 anos como tradutora. Por ser um marco na minha carreira, foi natural refletir sobre lições aprendidas, conquistas, mudanças, ajustes e realizações. Por isso pensei em compartilhar com vocês 10 dicas de coisas que aprendi nesses 10 anos de carreira.

1) Seja curioso. Queira saber mais e mais. Qualquer assunto pode ser útil para um tradutor. Você nunca sabe quando alguma palavra daquele assunto aparecerá no seu texto ou terá alguma relação com ele, por mais distante que pareça da sua área de especialização.

2) Respeite seus limites físicos e mentais. Pode ser tentador querer trabalhar 12, 16, 20 horas quando se está começando (ou anos mais tarde), ou até virar a noite. Mas lembre-se que seu corpo é sagrado e que, com os anos, vai se desgastando. Se o corpo não aguenta mais ficar sentado, escute-o e pare. Se a mente está sobrecarregada, pare e descanse. Analise bem os trabalhos e prazos antes de aceitá-los para não sobrecarregar seus limites depois. Você não é super-herói, nem precisa ser. Durma bem, alimente-se bem. Isso tudo influencia sua jornada diária de trabalho, sua comunicação com o cliente e os resultados tradutórios.

3) Esteja aberto para receber feedback. Receber a opinião do outro (seja um colega, um gerente de projeto ou um cliente direto) sobre seu trabalho pode assustar no início, mas é algo, em realidade, valioso. É a sua oportunidade de crescer, de ver quais pontos na sua tradução não fazem sentido quando outra pessoa a lê, de aprender algo novo, de refinar suas habilidades tradutórias e mais. Esteja aberto ao feedback e agradeça por lhe mostrarem um novo caminho na sua tradução ou algum deslize que você não tenha percebido.

4) Faça parceria com um colega da área para que ele revise suas traduções e comente sobre elas. Uma das decisões mais felizes que tomei foi começar a traduzir para uma colega nativa de inglês, no início da minha carreira. Ela tinha um volume grande de trabalho e repassava para mim. Eu lhe enviava a tradução, ela revisava e adicionava comentários, explicando algumas correções, distinguindo um termo de outro ou puxando minha orelha para algum erro que cometi, mas que eu já tinha aprendido antes. É uma forma não só de aprender como de criar um vínculo bacana com outro profissional. Porém note: você precisa estar disposto a encarar o número 3 acima.

5) Saiba negociar prazo e tarifa. Não tenha medo de negociar prazo e tarifa. Você pode se surpreender! Muitas vezes o gerente de projetos ou o cliente dá um prazo que é conveniente para ele, mas talvez não seja um prazo definitivo. Se você, com jeito, explicar a razão de não conseguir cumprir o prazo e fizer uma contraproposta, talvez o cliente possa aceitar, ainda mais se ele gostar do seu trabalho. Mesma coisa com a tarifa. Se acha que está muito baixa, negocie, explique a razão de estar pedindo um valor maior (sem agressividades, mas mostrando seu valor profissional).

6) Participe de eventos da área de tradução. Dos dez anos como tradutora, demorei 8 para participar de eventos na área. Não que não achasse interessante, mas nunca colocava os eventos como prioridade na minha agenda profissional. Até o primeiro evento de que participei. O networking é fantástico, o aprendizado é enorme, e a inspiração e o estímulo na carreira são imensos.

7) Faça programas fora do horário de trabalho para balancear a solidão. Trabalhar como freelancer em casa pode ser muito solitário. No começo da carreira, não me afetava muito, mas depois fui sentindo que a solidão do trabalhar em casa estava sendo um pouco prejudicial. Foi então que comecei a realizar muitos programas com mais gente fora do horário de trabalho. Café com amigos, almoço com colegas, aulas de dança, academia, cursos… As opções são muitas e o contato com outras pessoas fora do horário de trabalho alivia as horas de solidão na frente do computador. (E não se esqueça que há ainda as opções de coworking and hoffice, que ajudam a balancear a solidão durante o próprio horário de trabalho, dividindo o espaço com outros colegas).

8) Entenda que você é mais que um tradutor freelancer. Trabalhar como tradutor freelancer não quer dizer apenas enviar propostas a clientes, traduzir e emitir nota fiscal. Significa ser também administrador do seu negócio, fazer marketing e promover seus serviços, cobrar pagamentos, ser blogger, ser contador, ser profissional de mídias sociais, ser negociador, etc. Lembre-se que, apesar de freelancer, você na realidade tem um negócio a gerir e, a menos que tenha uma equipe que o ajude, você deve cuidar de todos os aspectos desse seu negócio de tradução sozinho.

9) Aproveite o período de vacas magras. Naquelas semanas que não entra nenhum trabalho, não se desespere. Não jogue a culpa na crise. Tampouco fique apenas enviando CVs para Deus e o mundo. Aproveite esse período de baixa para atualizar seu CV, reciclar seus conhecimentos, limpar seu computador, estudar e ler artigos na sua área de especialização, fazer cursos, praticar o uso daquela ferramenta de tradução que você tem, compilar glossários, ler e responder perguntas nos fóruns online, atualizar seu perfil nas mídias sociais (mesmo que já estejam completos, faça alguma modificação, mexa a “energia” do negócio que está lá parado, que todo mundo já leu e sabe como é) ou lidar com os outros aspectos do seu negócio (ver item 8 acima!). Tem muito a fazer nos períodos de seca de trabalho. O que não dá pra fazer é ficar reclamando sem agir.

10) Não faça o que os outros tradutores fazem só porque eles fazem. A frase parece meio confusa, mas é isso mesmo. Talvez alguns tradutores que você conheça tenham comportamentos, atitudes ou linhas de trabalho específicas e, porque eles fazem desse jeito, você quer copiar. Não! Seja autêntico. Foque seu tempo e sua energia naquilo que você acredita. Se tem tradutor aceitando trabalhos de uma  área específica e você acha melhor se especializar em outra, siga o que você acha. Se você acha que vlogs não são sua cara, tudo bem! Você não precisa começar a gravar vídeos porque a tendência agora é todo mundo fazer vídeos sobre a profissão. Quanto mais realizar atividades dentro da profissão que tenham a ver com você, mais chance você tem de atrair coisas boas, se conectar com as pessoas certas e muito mais. Seja você. [Nota: certamente há tendências que acho imprescindíveis (por ex., trabalhar com CAT) e, nesses casos, penso ser fundamental que todos sigam a tendência. Discernimento e bom senso são valiosos aqui.]

Agora, que venham os próximos 10 anos de carreira! 🙂

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20/06/2016 · 04:41

Mantendo a função do original – 3 pontos a analisar

Quem já assistiu a algumas das minhas palestras sabe que gosto da abordagem funcionalista – entender a função do texto original e reproduzí-la na tradução. Nesta semana, em um trabalho para uma cliente, ficou bastante claro como é importante seguir a função do texto de partida.

Em dezembro de 2015, traduzi a proposta de um projeto do português ao inglês para uma cliente, referente a um programa socioambiental na Índia. Apesar de ser uma proposta, ou seja, com informações sobre os detalhes do projeto (função informativa), o texto continha um alto nível promocional (pois, sendo uma proposta, o desejo é de vendê-la ao leitor) e emotivo (emoção colocada através de frases com ritmo, usando substantivos e palavras positivas e sagradas) (função promocional/persuasiva), além de um tom levemente expressivo, visto que a autora colocava um pouco de sua expressividade e perspectiva no texto (função expressiva).

Segui essas características na tradução, o que foi muito apreciado pela cliente. Em janeiro, a cliente editou o texto original, acrescentando informações, mas, como eu estava de férias (propriamente na Índia!), não pude reproduzir as edições e os acréscimos na tradução e a cliente, então, buscou outro profissional para ajudá-la. Resultado: o novo tradutor alterou todo o caráter e estilo da tradução, deixando-a engessada. Note que isso não é uma crítica ao tradutor ou quanto à qualidade geral do texto traduzido – pelo contrário, gramaticalmente, a tradução estava ótima. Mas não fluía como o original; não dava vontade de participar do programa ou querer saber sobre ele ou sobre as experiências da autora. A cliente, então, semana passada me procurou. Recomeçaria a enviar a proposta pros interessados, mas queria que eu revisasse e voltasse ao estilo “poético” (palavras dela) de antes.

Para mim, foi um prazer voltar à tradução e lhe dar novamente as características do original. Aí é que está a beleza de traduzir. Para fazer no automático, perde a graça. Gosto é de destrinchar o original, entender cada partezinha do texto de partida e saber que o texto de chegada terá o mesmo efeito.

Importante: neste caso, a cliente fala inglês e percebeu a diferença de estilo, a ponto de pedir para mudá-lo. Porém, imaginemos se fosse outra língua que ela não entendesse – a função promocional e expressiva se perderia para sempre e talvez isso prejudicasse a prospecção de participantes para o projeto.

Portanto, analisem no seu texto de partida, pensando no texto de chegada:

  1. O texto dá informações, detalhes, dados? Se sim, reproduza todos na tradução.
  2. Há uma tendência de uso de substantivos e adjetivos no texto original (por exemplo, muitas palavras negativas ou muitas positivas, muitos verbos de ação ou passivos, etc.). Consigo manter esses mesmos elementos na tradução? Se não diretamente, consigo usar outras palavras que proponham a mesma função?
  3. Há traços de expressão do autor no texto, como sua opinião ou visão sobre o assunto, mesmo que nas entrelinhas? Como sutilmente reproduzirei essa mesma expressividade na tradução?

É isso por hoje 🙂 Bom resto de semana a todos.

 

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07/04/2016 · 14:39

Conhecimento de mundo

Muitos tradutores defendem a ideia de que não é preciso ter morado fora do país para ser um bom tradutor. Concordo em partes, mas acredito que ter conhecimento de mundo (e isso inclui conhecimento de outras culturas, destinos diversos, gastronomias diferentes, etc.) não só enriquece o trabalho do tradutor, como também o facilita. E isso é ainda mais verdadeiro se você traduz textos de turismo e hotelaria.

Participo de um projeto de tradução de um hotel de luxo em Paris desde o ano passado. É um projeto contínuo. O fato de eu já ter visitado Paris facilita muito na hora de eu traduzir o texto, principalmente quando fala de alguns pontos da cidade. Não há muita pesquisa a fazer, pois já estive lá e sei do que o texto fala. Visualizo na minha cabeça Paris e os parisienses, e transporto isso à tradução. É claro que um tradutor que nunca esteve em Paris conseguiria traduzir o mesmo texto com qualidade, mas talvez tivesse que fazer pesquisas para entender um pouco como funciona a cidade ou o estilo parisiense de ser.

Em outro projeto, traduzi um treinamento para agentes de viagem especializados na Austrália. Como morei na terra dos cangurus por sete anos, sei que determinada cidade fica ao norte de Sydney e não ao sul como diz, por deslize, o original, e posso assinalar tal deslize ao gerente de projeto. O cliente certamente ficará feliz. Não necessariamente é nosso deve pegar incorreções no texto de partida, mas isso, para mim, é “ir além” no meu trabalho como tradutora e visto por muitos clientes e agências como profissionalismo. Me torna parceira do cliente.

É claro que não é fácil ter a oportunidade de viajar sempre, mas fiquem atentos a qualquer experiência que vocês tenham fora da sua própria rotina. Qualquer novo produto, nova forma de pensar, novo destino, pode ajudar no processo tradutório.

Bons conhecimentos e bom trabalho a todos! 🙂

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12/02/2016 · 16:59