Mantendo a função do original – 3 pontos a analisar

Quem já assistiu a algumas das minhas palestras sabe que gosto da abordagem funcionalista – entender a função do texto original e reproduzí-la na tradução. Nesta semana, em um trabalho para uma cliente, ficou bastante claro como é importante seguir a função do texto de partida.

Em dezembro de 2015, traduzi a proposta de um projeto do português ao inglês para uma cliente, referente a um programa socioambiental na Índia. Apesar de ser uma proposta, ou seja, com informações sobre os detalhes do projeto (função informativa), o texto continha um alto nível promocional (pois, sendo uma proposta, o desejo é de vendê-la ao leitor) e emotivo (emoção colocada através de frases com ritmo, usando substantivos e palavras positivas e sagradas) (função promocional/persuasiva), além de um tom levemente expressivo, visto que a autora colocava um pouco de sua expressividade e perspectiva no texto (função expressiva).

Segui essas características na tradução, o que foi muito apreciado pela cliente. Em janeiro, a cliente editou o texto original, acrescentando informações, mas, como eu estava de férias (propriamente na Índia!), não pude reproduzir as edições e os acréscimos na tradução e a cliente, então, buscou outro profissional para ajudá-la. Resultado: o novo tradutor alterou todo o caráter e estilo da tradução, deixando-a engessada. Note que isso não é uma crítica ao tradutor ou quanto à qualidade geral do texto traduzido – pelo contrário, gramaticalmente, a tradução estava ótima. Mas não fluía como o original; não dava vontade de participar do programa ou querer saber sobre ele ou sobre as experiências da autora. A cliente, então, semana passada me procurou. Recomeçaria a enviar a proposta pros interessados, mas queria que eu revisasse e voltasse ao estilo “poético” (palavras dela) de antes.

Para mim, foi um prazer voltar à tradução e lhe dar novamente as características do original. Aí é que está a beleza de traduzir. Para fazer no automático, perde a graça. Gosto é de destrinchar o original, entender cada partezinha do texto de partida e saber que o texto de chegada terá o mesmo efeito.

Importante: neste caso, a cliente fala inglês e percebeu a diferença de estilo, a ponto de pedir para mudá-lo. Porém, imaginemos se fosse outra língua que ela não entendesse – a função promocional e expressiva se perderia para sempre e talvez isso prejudicasse a prospecção de participantes para o projeto.

Portanto, analisem no seu texto de partida, pensando no texto de chegada:

  1. O texto dá informações, detalhes, dados? Se sim, reproduza todos na tradução.
  2. Há uma tendência de uso de substantivos e adjetivos no texto original (por exemplo, muitas palavras negativas ou muitas positivas, muitos verbos de ação ou passivos, etc.). Consigo manter esses mesmos elementos na tradução? Se não diretamente, consigo usar outras palavras que proponham a mesma função?
  3. Há traços de expressão do autor no texto, como sua opinião ou visão sobre o assunto, mesmo que nas entrelinhas? Como sutilmente reproduzirei essa mesma expressividade na tradução?

É isso por hoje 🙂 Bom resto de semana a todos.

 

Conhecimento de mundo

Muitos tradutores defendem a ideia de que não é preciso ter morado fora do país para ser um bom tradutor. Concordo em partes, mas acredito que ter conhecimento de mundo (e isso inclui conhecimento de outras culturas, destinos diversos, gastronomias diferentes, etc.) não só enriquece o trabalho do tradutor, como também o facilita. E isso é ainda mais verdadeiro se você traduz textos de turismo e hotelaria.

Participo de um projeto de tradução de um hotel de luxo em Paris desde o ano passado. É um projeto contínuo. O fato de eu já ter visitado Paris facilita muito na hora de eu traduzir o texto, principalmente quando fala de alguns pontos da cidade. Não há muita pesquisa a fazer, pois já estive lá e sei do que o texto fala. Visualizo na minha cabeça Paris e os parisienses, e transporto isso à tradução. É claro que um tradutor que nunca esteve em Paris conseguiria traduzir o mesmo texto com qualidade, mas talvez tivesse que fazer pesquisas para entender um pouco como funciona a cidade ou o estilo parisiense de ser.

Em outro projeto, traduzi um treinamento para agentes de viagem especializados na Austrália. Como morei na terra dos cangurus por sete anos, sei que determinada cidade fica ao norte de Sydney e não ao sul como diz, por deslize, o original, e posso assinalar tal deslize ao gerente de projeto. O cliente certamente ficará feliz. Não necessariamente é nosso deve pegar incorreções no texto de partida, mas isso, para mim, é “ir além” no meu trabalho como tradutora e visto por muitos clientes e agências como profissionalismo. Me torna parceira do cliente.

É claro que não é fácil ter a oportunidade de viajar sempre, mas fiquem atentos a qualquer experiência que vocês tenham fora da sua própria rotina. Qualquer novo produto, nova forma de pensar, novo destino, pode ajudar no processo tradutório.

Bons conhecimentos e bom trabalho a todos! 🙂

Try and verb

Neste post, quero falar da fórmula “try and + verb” do inglês, na qual verb é o segundo verbo utilizado nesse tipo de expressão.

Tenho visto, em algumas traduções que reviso, a tradução literal “tente e + verbo“, por isso o post para alertar que, nessa expressão, o segundo verbo não é conjugado como o primeiro (fica no infinitivo) e o “and” é omitido na tradução. Assim, podemos dizer que “try and + verb” é traduzido da mesma maneira que “try to + verb“.

Vejamos:

  • Try and save some money. -> Tente economizar um pouco de dinheiro. [Incorreto: Tente e economize um pouco de dinheiro]
  • Try and make the booking today. -> Tente fazer a reserva hoje. [Incorreto: Tente e faça a reserva hoje]
  • I will try to book a table later. -> Tentarei reservar uma mesa mais tarde. [Mesma tradução caso o original fosse “I will try and book a table later”.]

Vale lembrar também a importância de ler a tradução após concluída para pegar deslizes como esses. Ao ler uma tradução literal dessas acima (“Tente e economize”), percebemos que não soa natural e isso já bastaria para levantar uma bandeira de alerta e fazer as devidas correções. Ou seja, permitam-se sair do literal e não seguir a estrutura do original, deixando, assim, as traduções mais naturais.

Até o próximo post 🙂